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O tom do manifesto / The tone of the manifesto

Atualizado: 24 de Abr de 2018

Texto por Maria Adélia Menegazzo | Mostra "A, Ar, Árvore" (2003 - Campo Grande - MS - Brasil)


Por muito tempo, os trabalhos de Lúcia Barbosa falaram alto,

contaram histórias e mitos, fizeram denúncias, quiseram ser

manifestos. Essa é sua concepção de arte e do papel do artista.

A surpresa de hoje é ver que nada disso deixa de existir, mas que

a linguagem mudou, torna-se mais segura, porém não impassível.

Lúcia agora fala também pelo silêncio, pelo que não diz.


A artista fez com que seus trabalhos passassem por um processo

de profilaxia, levando-os a perderem os excessos, abstraindo as formas e,

a partir daí, uma linguagem mais limpa e controlada pode emergir.

Talvez essa tenha sido a parte mais difícil do processo, mas como

resultado podemos nos defrontar com a pintura dialogando primeiro,

com ela mesma, e em seguida com o mundo.


A aparente facilidade das formas limpas poderia se diluir em modismo se não

houvesse o cuidado de sustenta-la em bases sólidas. O velho confronto entre

a natureza e a cultura retoma aqui o seu espaço. Lúcia problematiza essas noções

quando opõe a figura de um indígena, que "olha o mundo através de uma janela",

numa clara referencia a Alberti, às cores abstraídas desse mesmo olhar. Anteriormente

essas cores apareceram em desenhos, representações minuciosas da arte plumária.

Hoje, tornaram-se grandes superfícies cromáticas que passam a dirigir nosso percurso visual.


O retorno à figura é dado em uma série de sete desenhos mediados por computação gráfica repetindo sempre o mesmo motivo - uma árvore morta - porém sempre diferente, seja nas cores, na luz ou nos padrões do entorno. Ainda uma série de desenhos em bico-de-pena pretende chegar a um efeito do real narrando cenas do cotidiano por meio de uma ironia, contenciosa o suficiente para remover certezas e solapar verdades. Essas inserções irônicas muito pessoais são mais transgressoras do que as próprias cenas.


Ao final, um grande totem, uma árvore revestida com estômago de boi dá o tom do manifesto. Sem falso psicologismo, totem e tabu aparecem na relação de poder que essas noções implicam. Esse é o eixo a partir do qual proliferam ramos (podados) que preenchem o espaço construído, um espaço que projeta formas dotadas de inesperada força expansiva indicando o artista como o acrescentador da natureza, dotando-a de novas cores e novos sentidos, porque é dela mesma que podem ser criados. Quais os sentidos? Não cabe ao artista responder, mas ao espectador, busca-los.


Maria Adélia Menegazzo


The tone of the manifesto - Text by Maria Adélia Menegazzo


For a long time, the works of Lúcia Barbosa spoke loudly,

told stories and myths, made denunciations, wanted to be

manifested. This is her conception of art and the role of the artist.

Today's surprise is to see that none of this ceases to exist, but that

the language has changed, it becomes more secure, but not impassive.

Lucia now also speaks for silence, for what she does not say.


The artist made her works go through a process

of prophylaxis, leading them to lose excesses, abstracting the forms and,

from there, a cleaner and more controlled language might emerge.

This may have been the hardest part of the process, but as a result

We can confront with painting dialoguing first,

with itself, and then with the world.


The apparent ease of clean forms could be diluted in fad if there weren’t

caution in supporting it on solid foundations. The old confrontation between

nature and culture takes up its space here. Lucia problematizes these

notions

when she opposes the figure of an Indian, who "looks at the world through a

window",

in a clear reference to Alberti, to the abstracted colors of that same look.

Previously, these colors appeared in drawings, meticulous representations of art of feather.

Today, they have become great chromatic surfaces that have started to direct our visual path.


The return to the figure is given in a series of seven drawings mediated by

computer graphics always repeating the same motive - a dead tree -

but always different, whether in the colors, the light or the patterns of the surroundings.

Yet a series of pen-and-ink designs are intended to reach a

real effect of daily life through irony that is contentious

enough to remove certainties and undermine truths. These very personal ironic insertions are more transgressive than the scenes themselves.


In the end, a large totem, a tree lined with ox's stomach sets the tone

of the manifesto. Without false psychologism, totem and taboo appear in the relation of power that these notions imply. This is the axis from which branches

(pruned) fill the built space, a space that projects

forms of unexpected expansive force indicating the artist as

adding to nature, endowing it with new colors and new senses,

because it is from nature itself that they can be created. What are the senses? The answer is not up to the artist, but to the viewer.



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